Entrevista com Dulce Consuelo R. Soares , Psicopedagoga Clínica / Institucional / Consultora em RH e Pedagoga, Reg: 9500487 - Mec/RJ / Autora do Livro infantil: A Caixinha de Insetos de Pedro: uma leitura psicopedagógica da escola do aluno e do professor.


1- Uma história para significar, na objetividade e na subjetividade nas mais diferentes idades... Como surgiu a idéia de escrever uma história para crianças e adultos onde a leitura psicopedagógica se faz presente?

R- A idéia surgiu em 1997, quando fazia a minha monografia para o curso de pós-graduação em Psicopedagogia com Aglael Luz Borges e Magda Anachoreta na UNESA/RJ. Na verdade eu busquei dentro da minha história a minha professora Teresa que de fato existiu e da vivência que tive no curso; eu desejava descrever o Paradigma Luz de Aglael Borges de uma forma simples, onde adulto e criança sentissem e pensassem sobre o que eu estava falando, de um movimento que ocorre internamente em todos nós e que pode ser reativado / ou (re)instalado pelo professor quando assume a postura de um Construtor de Vínculos Positivos. A história de Pedro envolve uma outra história , estudar com a professora Aglael me proporcionou um exercício interno fantástico através do Paradigma: O Movimento Natural da Construção do Ser e do Saber. Pude descobrir as lacunas do meu processo ensino-aprendizagem, através dos movimentos frente ao novo( indiscriminado-discriminado-separado-integrado) e iniciar minha reabilitação interna. A construção da história foi o auge da minha viagem psicopedagógica, pois pude construir, criar com autonomia , atividade e autoridade - princípios ligados ao ato de aprender que tive o prazer e o privilégio de conhecê-los pessoalmente através do Paradigma.


2- É notório que o sistema educacional necessita de reformulação, como psicopedagoga, em sua opinião, quais são as mudanças iniciais para um aprendizado eficiente?

R- A primeira; grande; e mais difícil na minha opinião: é a nossa própria mudança. É claro que o investimento externo é muito importante, mas acredito que se o professor começasse a sentir, a pensar, qual é de fato o seu papel social neste mundo e principalmente nesse milênio voltaria a se orgulhar de ser professor como meus professores na década de 70. Eu me lembro quando era garota que o professor já ganhava mal, mas lembro também que tinham o conhecimento, sabiam mesmo! Hoje ganham mal e nem sempre sabem aquilo que ministram em suas aulas. Acredito que para um aprendizado eficiente o professor precisa voltar a estudar o conteúdo e como gostaria de aprender aquilo que vai ser ensinado se fosse aluno, deveria buscar várias maneiras de explicar aquela matéria previamente para que os alunos corressem o risco de aprender, acredito também que devem buscar a educação assistemática do aluno para convergir com o conteúdo sistematizado da escola, para que a aula tenha sentido, prazer e coerência com os desejos e anseios dos alunos.


3- Quais dificuldades na aprendizagem encontram aqueles alunos que não desenvolvem o espírito de curiosidade?
R- O espírito de curiosidade é uma ferramenta imprescindível para o ato de aprender, pois o Princípio da Atividade: de busca, de pesquisa, de movimento interno é acelerado pela curiosidade, as crianças que não desenvolvem esse "espírito" podem apresentar uma aprendizagem mimética, de repetição, de reprodução, do tipo parece mas não é, ou seja, parece que sabe mas não sabe ou ainda tornar-se uma pessoa triste e sem desejo para aprender. Esse espírito de curiosidade vem de brinde para nós, a escola, os pais e os professores precisam só manter a chama acesa para termos e sermos profissionais competentes e felizes com o nosso trabalho.

4- Uma das abordagens do texto "A caixinha de insetos de Pedro" é a auto-avaliação da professora. Existe na realidade esta preocupação por parte do corpo docente nas escolas públicas ou seriam necessário anos para que pudéssemos criar sujeitos críticos e autocríticos?
R- É verdade... Há a necessidade da auto-avaliação constante do professor. Na minha realidade ainda encontro muitas resistências, quando ministro cursos com o grupo SEJA/RJ( Saúde e Educação para o Jovem Aprendiz - fundado por Aglael Luz Borges) para o corpo docente de escolas públicas encontro grupos conscientes e outros não, sabemos que isso é muito relativo, trabalhamos recentemente com um grupo de Guapimirim / interior do estado do RJ e foi maravilhoso, porém, já trabalhamos com outros da capital que não foi como esperávamos, mas é isso mesmo, não podemos desistir, vamos encontrar professores/ jequitibás e professores/ eucaliptos. Sinto que já acontece há algum tempo uma produção, ainda que silenciosa, na Construção de Sujeitos críticos e autocríticos, mas, acredito que este fenômeno de conscientização, de ética , de produção, nos próximos cinco anos irá estourar mais rápido por conta da internet e da globalização, acredito que agora o Conhecimento se impôs novamente, vamos ter de aprender pelo amor ou pela dor!

5- O desejo também aparece como ponto importante no livro. Podemos dizer que não há aprendizagem sem ele?
R- Sim. E estamos falando da aprendizagem de verdade, daquela que vira "proteína" que se inscreve no corpo e na alma. Somos fruto do desejo. Do desejo de nossos pais. Como excluir o desejo da aprendizagem? E por quê? Quando estamos desejantes ficamos mais atentos, temos prazer, estamos felizes. É a parceria ideal do sujeito que deseja com o sujeito que conhece. É a Psicopedagogia!

6- O contexto informal da aprendizagem propicia a produção do conhecimento?
R- Sim. Além de facilitar o vínculo com o professor, com o conteúdo e com os próprios colegas; partir do assistemático para o sistemático é de fundamental importância para quem deseja reativar ou (re)instalar o Movimento Natural na Construção do Ser e do Saber. A escola passa a ser percebida e vivenciada como algo que é da vida, integrada, com sentido e engajada no mundo.


7- Qual a importância dos vínculos de confiança criados entre professores e alunos?

R- O professor na verdade é um Construtor de Vínculos, que desejamos que sejam positivos, porém nem sempre encontramos professores assim. Confiar em alguém é algo extremamente profundo, sério e na minha opinião muito bonito e não é para quem quer é para quem pode! Estabelecer um vínculo de confiança na relação ensinante x aprendente é contar com a certeza de um VIR A SER (DASEIN) melhor e mais fecundo de ambas as partes onde juntos (professor e aluno) se formam humanos. Um vínculo de confiança opera maravilhas, desperta o desejo de aprender, mantém a chama do conhecer para saber e favorece a multiplicação de pessoas de bem na humanidade.


Entrevista publicada no site PsicopedagogiaOnLine.

 

 

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